
Desafios de Abe no primeiro encontro com Trump. A vitória de Trump surpreendeu a Ásia, com líderes e mercados financeiros lutando para compreender o que, exatamente, significaria para a região uma presidência de Trump.
O Japão, um dos aliados mais próximos dos EUA na região da Ásia-Pacífico, esperava que os democratas conservassem a Casa Branca, e a liderança japonesa foi pega de surpresa pelo resultado da eleição.
O “Trump Shock”, como foi rotulado pela mídia japonesa, levou o primeiro-ministro, Shinzo Abe, a buscar uma reunião urgente, e sem precedentes, com o novo presidente eleito dos EUA, poucos dias após o resultado da eleição.
O líder japonês solicitou a reunião, que está programada para acontecer em Nova York amanhã, para esclarecer a posição de Trump sobre a segurança regional e o comércio.
A urgência com que esta reunião foi organizada indica, claramente, o quanto o Japão está preocupado com o compromisso de Trump com a segurança na região Ásia-Pacífico.
Abe e o governo japonês enfrentam a tarefa, desafiadora, de verificar o quanto da retórica, controversa, da campanha de Trump está destinada a se tornar política, e quanto dela era simplesmente retórica populista.
O Japão tem seus próprios militares. No entanto, tem havido uma forte presença militar norte-americana no país, desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Atualmente, existem 54.000 militares norte-americanos baseados no Japão e o país tornou-se dependente das forças dos EUA para equilibrar as ameaças potenciais da China e da Coréia do Norte.
Falando após as eleições dos EUA, Abe enfatizou que: “A paz e a estabilidade na região Ásia-Pacífico, que é o centro do crescimento econômico global, é uma fonte de força dos EUA. A forte aliança Japão-EUA é indispensável para apoiar a paz e a estabilidade na região “.
No entanto, Trump indicou, claramente, que vai colocar os interesses dos Estados Unidos em primeiro lugar e está menos preocupado com o papel dos EUA em assuntos globais do que seus antecessores.

Durante uma entrevista para o New York Times, Trump chegou a questionar princípio básico da OTAN de proteger um Estado membro que seja atacado.
Na trilha da campanha, Trump criticou, repetidamente, aliados dos norte-americanos, como o Japão, por não contribuir suficientemente para apoiar as bases militares dos EUA, um ponto discutido pela ministra da Defesa do Japão, Tomomi Inada, que disse a repórteres em Tóquio que: “estamos suportando o peso que nós devemos carregar”. Trump, no entanto, ameaçou retirar as tropas a menos que os aliados comecem a pagar mais.
Sobre a questão do programa de mísseis avançado da Coréia do Norte, Trump chegou a sugerir que a Coréia do Sul e o Japão desenvolvessem seu próprio programa nuclear, em vez de confiar no “guarda-chuva nuclear” dos EUA, uma medida profundamente impopular em todo o Japão.
Um assessor de Trump, que se recusou a ser identificado, disse à Reuters que o presidente eleito dos EUA espera que o Japão adote um papel mais ativo na Ásia e espera que o Japão se torne um aliado de primeira linha contra uma China cada vez mais agressiva.
Também acredita-se que sob a administração Trump, os militares do Japão serão encorajados a participar de patrulhas aéreas e marítimas conjuntas com os EUA, no disputado Mar da China Meridional.
Embora não esteja claro quanto o Japão estará disposto a participar de patrulhas conjuntas que possam agitar Pequim.
Em 2012, o Partido Liberal Democrático (PLD) emitiu um projeto de alteração constitucional buscando reformar a Constituição de 1947, que havia sido redigida pelos EUA.
Essas emendas constitucionais são revisões, controversas, do Artigo 9, que ampliarão o escopo operacional dos militares japoneses e permitirçao que o Japão possa enviar tropas ao exterior para defender um aliado.
Se a mensagem do presidente eleito dos Estados Unidos for de que o Japão precisa ser capaz de se proteger, isso poderá dar a Abe o sinal verde para suas ambições militaristas.
Com o partido de Abe assegurando a superioridade em ambas as casas do parlamento do país, o Japão pode ser capaz de fortalecê-lo significativamente, e afastar-se do seu estado pacifista de há muito tempo, embora isso possa levar a uma perigosa corrida armamentista, em uma região já bastante tensa.

Mesmo que Abe seja capaz de aprovar a legislação necessária, reforçar as forças armadas do Japão levará um tempo considerável.
As preocupações do Japão são de que a partir de janeiro de 2017, a região Ásia-Pacífico deixará de estar na lista de prioridades do presidente dos EUA, deixando um vácuo que a China estará pronta e esperando para preencher.
Esses medos foram expressos na principal publicação financeira do Japão, o Nikkei Shimbun, “Devemos estar cientes de que os EUA vão prestar menos atenção à Ásia … Durante o período de transição, a China poderia fazer um novo movimento no Sul ou no Mar da China Oriental. O governo japonês precisa estar pronto para tal situação “.
Um fator que pode dar a Abe e às lideranças japonesas algum alívio é que, desde que venceu a eleição, Trump indicou uma disposição para rever alguns pontos de sua retórica de campanha, como acabar com o Obamacare e processar Hillary Clinton, também é pouco provável a construção de um muro ao longo da fronteira mexicana, apesar de ser uma das suas mais populares promessas de campanha.
Ao encontrar-se com Trump o mais cedo possível, Abe espera estar construindo uma relação produtiva com o novo presidente, esclarecer a postura de Trump sobre a segurança regional e, se possível, influenciar o entendimento do presidente eleito sobre a importância de garantir a estabilidade na região Ásia-Pacífico.
Como empresário, Trump pode, após reflexão, concordar que assegurar a estabilidade em todo o Mar da China Meridional, que está entre as rotas marítimas mais movimentadas do mundo e através da qual passam cerca de US $ 1,2 trilhão de comércio norte-americano, anualmente, ainda é um uso valioso dos recursos dos EUA.
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